Banco Master colapsa: R$ 1,86 bilhão de previdências públicas ficam sem garantia após liquidação

Banco Master colapsa: R$ 1,86 bilhão de previdências públicas ficam sem garantia após liquidação

O colapso do Banco Master não foi apenas mais uma falência bancária. Foi um terremoto nas contas de Rioprevidência, Amprev e outros 16 fundos de pensão públicos que aplicaram quase R$ 1,86 bilhão em títulos sem proteção do Fundo Garantidor de Créditos — dinheiro que deveria garantir a aposentadoria de centenas de milhares de servidores. A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central do Brasil em 18 de novembro de 2025 deixou esses fundos na escuridão: ninguém sabe quanto recuperarão, e o prazo pode se estender por anos. Enquanto mais de um milhão de pequenos investidores terão seus depósitos até R$ 250 mil ressarcidos, os servidores públicos — professores, policiais, enfermeiros — correm o risco de ver suas aposentadorias comprometidas. E o pior? Tudo isso aconteceu com aval de gestores que confiaram em ratings de agências e promessas de rendimentos absurdos.

Quem perdeu mais? O Rio de Janeiro e seus 235 mil aposentados

A maior exposição está no Rioprevidência, fundo que paga aposentadorias e pensões a 235 mil servidores inativos do Estado do Rio de Janeiro. Entre outubro de 2023 e agosto de 2024, a entidade aplicou entre R$ 960 milhões e R$ 1 bilhão em letras financeiras do Banco Master, com vencimentos programados para 2033 e 2034. O valor equivale a quase metade do que o fundo recebe mensalmente em royalties e participações especiais — recursos que, segundo o próprio Rioprevidência, ainda são suficientes para manter o pagamento em dia. Mas isso é um alívio temporário. Se os papéis não forem recuperados, o déficit futuro será brutal. O governo estadual já tentou usar esses mesmos recursos para pagar dívidas com a União, mas a medida foi suspensa — e depois derrubada — pela justiça. Ainda assim, o TCE-RJ já havia proibido novos aportes no Master em outubro de 2025, após descobrir que o fundo continuava investindo mesmo após alertas de risco.

Outros estados e municípios na mira da crise

O Amapá não ficou de fora. O Amprev aplicou R$ 400 milhões — um valor equivalente a quase 15% de seu patrimônio total. Em Maceió, o Maceió Previdência investiu entre R$ 97 milhões e R$ 100 milhões em papéis do Banco Master. E em São Roque, cidade de pouco mais de 150 mil habitantes em São Paulo, o fundo de previdência municipal aplicou R$ 93,15 milhões. Esses números não são estatísticas abstratas. São salários que deixarão de ser pagos. São vidas que serão afetadas. Em Itajubá, Minas Gerais, o Itaprevi entrou com ação judicial contra o Banco Central, pedindo responsabilização por não ter impedido as operações. Ainda não há resposta. Mas o precedente é preocupante: se um fundo de pensão de uma pequena cidade pode processar o BC, o que acontecerá com os grandes?

Como isso foi possível? A armadilha do "grau de investimento"

O Banco Master não era um bandido disfarçado de banco. Ele era um banco com certificado de funcionamento, com rating "A-" da Fitch Ratings, e com uma política de captação agressiva: oferecia rendimentos de até 140% do CDI. Enquanto bancos menores pagavam em torno de 110% a 120%, o Master parecia um milagre financeiro. E os gestores dos fundos públicos, sob pressão para gerar retornos, caíram na armadilha. "As aplicações foram realizadas em conformidade com todos os regramentos vigentes à época", afirmou o Rioprevidência em comunicado. Mas os regramentos eram frágeis. Letras financeiras não têm cobertura do FGC. E ninguém exigiu garantias reais. Nenhum ativo imobiliário, nenhuma carteira de títulos públicos como lastro. Apenas promessas escritas em papel. O que aconteceu? A instituição usou o dinheiro de um lado para pagar os juros de outro — o clássico esquema de pirâmide. Até que os novos aportes pararam. E o colapso veio.

Investigação em andamento: crimes, responsabilidades e ressarcimentos

Investigação em andamento: crimes, responsabilidades e ressarcimentos

Na mesma tarde da liquidação, a Polícia Federal prendeu o presidente do Banco Master e outros executivos. A operação, chamada de "Master Clean", tem como objetivo apurar "toda a extensão dos crimes eventualmente cometidos". A pergunta que paira é: houve fraude? Havia documentos falsos? Os gestores dos fundos públicos foram enganados — ou agiram com negligência criminosa? A resposta pode mudar o rumo da justiça. Se for comprovado que gestores dos fundos ignoraram alertas de risco ou violaram o princípio da prudência, eles podem ser condenados a ressarcir integralmente os prejuízos. E isso não é hipótese. Em outros casos, como o do Banco Rural, gestores foram obrigados a devolver milhões. O Tribunal de Contas da União já está analisando os contratos. E os tribunais estaduais, como o TCE-RJ e o TCE-AL, já abriram processos administrativos. Alguns servidores já estão se organizando em sindicatos para exigir ressarcimento.

O que isso revela sobre a gestão da previdência pública?

O caso Master não é isolado. É o sintoma de um sistema que, há anos, trata fundos de pensão como caixas de investimento privado. Enquanto os fundos de pensão de empresas privadas têm conselhos independentes e regras rígidas, os públicos — especialmente os municipais — são frequentemente administrados por políticos ou indicados de partidos, sem experiência financeira. O resultado? Aplicações em títulos de alto risco, falta de transparência, e ausência de auditorias independentes. O IPREV-DF já está sob escrutínio por eventuais exposições ao BRB. Outros fundos, como os de Belém, Fortaleza e Recife, também estão sendo auditados. O que está em jogo não é só dinheiro. É a confiança na previdência pública. Se servidores não acreditam que vão receber o que lhes foi prometido, a reforma da Previdência perde qualquer legitimidade. E a sociedade perde o pacto social que sustenta o Estado.

Qual o próximo passo?

Qual o próximo passo?

O processo de liquidação do Banco Master pode levar cinco, sete anos. Enquanto isso, os fundos de pensão precisam de um plano de contingência. O Rioprevidência já negocia a substituição dos papéis por precatórios federais — algo que, se concretizado, pode aliviar parte do risco. Mas isso depende da vontade política da União. O Ministério da Economia diz que não há recursos para resgatar esses prejuízos. O Congresso, por sua vez, está focado em outras pautas. Enquanto isso, os servidores continuam trabalhando. E esperando. Sem saber se, quando se aposentarem, terão o que comer.

Frequently Asked Questions

Por que os fundos de pensão públicos não têm proteção do FGC?

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) só cobre aplicações de até R$ 250 mil por CPF em instituições financeiras, e apenas para depósitos e títulos de renda fixa voltados a pessoas físicas. Fundos de pensão são entidades jurídicas — não pessoas — e aplicam em títulos como letras financeiras, que são exclusivamente para investidores institucionais. Por isso, mesmo sendo dinheiro público, esses recursos não têm garantia. É uma brecha legal que permitiu o Banco Master captar bilhões sem risco de devolução.

Quais estados e municípios estão mais expostos ao Banco Master?

O Rio de Janeiro, com R$ 960 milhões a R$ 1 bilhão no Rioprevidência, lidera a lista. Em seguida, vem o Amapá (Amprev), com R$ 400 milhões; Maceió (Maceió Previdência), com R$ 97 milhões; e São Roque (SP), com R$ 93,15 milhões. Outros municípios como Itajubá (MG), com Itaprevi, e cidades de Minas Gerais e Bahia também estão sendo auditadas. A lista completa ainda não foi divulgada, mas o Tribunal de Contas da União já identificou 18 fundos afetados.

Os gestores dos fundos podem ser responsabilizados?

Sim. Se for comprovado que os gestores ignoraram alertas de risco, violaram o Plano de Investimentos ou aplicaram recursos em instituições com rating de risco elevado, eles podem ser condenados a ressarcir o prejuízo com bens próprios. Em casos anteriores, como o do Banco Rural, gestores foram obrigados a devolver milhões. O Tribunal de Contas já abriu processos administrativos em pelo menos 12 estados, e a Justiça pode aplicar multas e até suspensão de cargos públicos.

O que pode ser feito para evitar que isso aconteça de novo?

Precisa haver uma reforma urgente na gestão dos RPPS: exigir transparência total nos investimentos, criar conselhos independentes com especialistas em finanças, proibir aplicações em títulos privados sem lastro real, e vincular os fundos a títulos públicos de baixo risco. Além disso, o FGC deve ser estendido — pelo menos parcialmente — aos fundos de pensão públicos. Hoje, servidores pagam contribuições para garantir sua aposentadoria, mas não têm proteção quando o sistema falha. Isso é inaceitável.

O Banco Master tinha histórico de irregularidades antes da falência?

Sim. Desde 2023, o Banco Central já havia emitido advertências sobre sua política de captação agressiva e sua dependência de recursos de curto prazo. A Fitch Ratings, embora tenha mantido o rating "A-", reduziu a perspectiva para "negativa" em abril de 2025. Além disso, o Banco Master foi alvo de denúncias de lavagem de dinheiro em 2024, mas as investigações não resultaram em punições. O que aconteceu foi uma falha sistêmica: reguladores viram o risco, mas não agiram. E gestores públicos, seduzidos por altos rendimentos, não questionaram.

Os servidores vão deixar de receber aposentadorias?

Neste momento, não. O Rioprevidência e outros fundos ainda têm recursos suficientes para manter os pagamentos, graças a royalties e receitas estaduais. Mas se os papéis do Banco Master não forem recuperados, em 2030 ou 2035 — quando os títulos vencem — pode haver déficit crônico. Aí, o governo terá que escolher: cortar benefícios, aumentar impostos ou usar dinheiro de outras áreas, como saúde e educação. Nenhuma das opções é boa. E todas afetam diretamente os servidores.

Comentários

Gabriel Henrique
Gabriel Henrique novembro 29, 2025 AT 01:08

Isso aqui é o fim da linha, mano. Governo não faz nada, Banco Central dorme na cadeira, e os servidores vão pagar com a aposentadoria deles. É um golpe organizado contra a classe trabalhadora. Eles sabiam que o Master era uma farsa e deixaram rolar. Vai ter que entrar com ação popular, porque ninguém vai se responsabilizar. O povo sofre, os ricos se divertem.

Dante Baptista
Dante Baptista novembro 30, 2025 AT 04:50

Cadê o FGC nisso tudo? Se é dinheiro público, deveria ter proteção. Mas claro, só protege quem tem conta no banco comum. Servidor público é lixo pra esses porra de banqueiro.

rosangela c gomes
rosangela c gomes novembro 30, 2025 AT 21:18

Eu sei que parece assustador, mas não desespera não... Tem jeito de resolver isso. Se a gente se organizar, pressionar os deputados, fazer panfleto, divulgar nas escolas... A gente consegue. Ninguém tá sozinho nisso. A gente vai ver luz no fim do túnel, eu acredito.

Luiz Eduardo Paiva
Luiz Eduardo Paiva dezembro 2, 2025 AT 12:43

O pior é que isso não é novidade. É a mesma coisa que aconteceu com o Banco Rural, com o BANERJ, com o BANERJ... Eles sempre repetem o mesmo erro. E sempre os mesmos que pagam. Enquanto os gestores ficam com o cargo, os professores e policiais vão morrer de fome. Isso aqui é genocídio financeiro. E o povo ainda vota nesses porra de políticos que mandam esses fundos pra lá.

Davi Peixoto
Davi Peixoto dezembro 2, 2025 AT 17:21

A ausência de lastro real nas letras financeiras aplicadas pelos fundos de pensão públicos constitui uma falha estrutural no arcabouço regulatório brasileiro. A distinção entre investidores institucionais e pessoas físicas no âmbito do FGC revela uma contradição ética, na medida em que o capital público é tratado como ativo de risco sem salvaguardas equivalentes às do setor privado. A judicialização do caso, embora tardia, é legítima e necessária.

Ranon Malheiros
Ranon Malheiros dezembro 3, 2025 AT 22:59

ALERTA MÁXIMO 🚨 O MASTER NÃO FOI SÓ UM BANCO... FOI UM PROJETO DE DESINSTITUCIONALIZAÇÃO DA PREVIDÊNCIA PÚBLICA! 🤯 Eles querem que a gente aposente com 800 reais e vá viver de doação! O BC sabia, o TCU sabia, o governo sabia... e deixou acontecer. Isso é um plano de desmonte! A elite tá rindo na sacada enquanto a gente chora no fim do mês. #MasterCleanÉFarsa

Victória Anhesini
Victória Anhesini dezembro 5, 2025 AT 21:55

Eu sei que tá difícil, mas a gente não pode desistir! Minha mãe é professora e tá com medo de não receber... mas se a gente se unir, se falar, se pressionar... a gente muda isso. Ainda dá tempo de fazer alguma coisa. Não vamos deixar eles nos apagarem.

Joseph Antonios
Joseph Antonios dezembro 7, 2025 AT 16:53

Quem investiu nisso foi burro. Se o governo não garante, então não devia ter colocado o dinheiro lá. É lógico. Se você não entende de finança, não mexe. É só isso. Não adianta chorar agora. Tinha que ter estudado antes.

Alisson Karlinski
Alisson Karlinski dezembro 9, 2025 AT 13:03

A previdência pública sempre foi uma ilusão. O Estado não tem dinheiro. Nunca teve. Só faz promessas para comprar votos. O Master foi só o espelho que mostrou a verdade: a aposentadoria é um sonho de criança. O sistema é uma pirâmide disfarçada de direito. E agora? Agora a gente descobre que o rei tá nu. E o pior? Ninguém tinha coragem de dizer isso antes.

Brunna Lima
Brunna Lima dezembro 10, 2025 AT 16:05

Esses gestores que aplicaram o dinheiro no Master precisam ser presos. Não é só negligência, é traição. Eles sabiam que não tinha lastro, sabiam que o rating era farsa, e ainda assim colocaram o dinheiro de professores, enfermeiros, policiais em um banco que parecia milagre. Isso é roubo com autorização. E o pior? Eles ainda têm cargos. Isso não pode ficar assim. Vai ter que entrar com ação criminal, não só administrativa. Eles vão ter que pagar com o próprio bolso. Não é só culpa do Banco Master. A culpa é de quem deixou acontecer.

Escreva um comentário: